por Vera Lúcia Costa Souza
“Com efeito, não é inimigo que me afronta: se o fosse, eu o suportaria; nem é o que me odeia quem se exalta contra mim: pois dele eu me esconderia: mas és tu, homem meu igual, meu companheiro, e meu íntimo amigo.” (Salmo 55: 12-13)
Ao ler este Salmo, vi descortinar-se diante dos meus olhos a situação de milhares de lares que tem vivido sobre um clima de violência chamada de violência doméstica. Ela pode se manifestar por agressão entre marido contra mulher, mulher contra marido, pais contra filhos, filhos contra pais, jovens contra os mais idosos. Portanto, a violência intrafamiliar afeta meninas, meninos, jovens, adultos e até anciões. Desta forma o lar que se supõe o lugar mais seguro, de acolhimento, de comunhão tem se tornado um
lugar que oculta tristeza e dores. Muitas pessoas acreditam que ninguém deve intervir no que acontece entre quatros paredes e que a agressão, que acontece dentro de quatros paredes é legal. Ou seja, entendendo por agressão todo ato cometido dentro da família por um de seus membros e que prejudica gravemente a vida, o corpo, a integridade psicológica e/ou a liberdade de outro membro da família.
A violência doméstica que pode se manifestar por agressões físicas como golpes de diversas intensidade, com as mãos, com instrumentos ou armas; queimaduras; tentativa de enforcamento; abuso e violência sexual; por outra parte violência psicológica através de ofensa como xingamentos e ameaças, humilhação, restrição dos direitos com controle do que o outro diz ou faz, desprezo, chantagem, privação material ou emocional, e em casos extremos pode-se chegar ao assassinato. Requer urgência no tratamento e discusão deste tema por parte da sociedade, a começar pela Igreja evangélica e seus membros.
A violência intrafamiliar que as estatísticas demonstram taxas elevadíssimas, sobretudo contra a mulher, é encontrada em todos os níveis da sociedade e os filhos, cônjuges, pais ou familiares agressores podem ser rico ou pobre, podem ser profissionais liberais, terem nível superior ou serem analfabetos, serem religiosos ou ateus. Muitas vezes, estas pessoas fora de casa são agradáveis, solícitas, respeitadoras, membros de igrejas, mas altamente violentos em casa.
Exemplo claro da expressão da violência doméstica é a praticada contra a mulher por parte do marido, “homem meu igual, meu companheiro, e meu íntimo amigo”. Este ciclo de violência se manifesta inicialmente com o atrito e os conflitos entre os cônjuges como insultos, ameaças, sendo expresso por crescente insatisfação e hostilidade. Inicialmente, a mulher tenta acalmar, ou ao menos não fazer aquilo que pode aborrecer ao marido, porém, esta situação segue aumentando e ela se tornar incapaz de continuar “controlando” o padrão de comportamento hostil, culminando com a agressão por parte do marido, “com efeito, não é inimigo que me afronta: se o fosse, eu o suportaria; nem é o que me odeia quem se exalta contra mim”.
Esta fase aguda termina quando o agressor realiza um ato violento, que produz uma redução física da tensão antes vivida e ele se justifica e se arrepende, chora, ajoelha, pede perdão, trata de ajudar a sua vítima, lhe mostra considerações e remorso com presente e promessa de que não tornará a repetir.
Cabe ressaltar que com o tempo prolongado de uma relação de maltratos, as agressões vão se tornando mais freqüentes e intensas com maior riscos para a mulher e a conciliação se torna cada vez menor. Quando diminui muito ou desaparece a conciliação, é o momento que a mulher reconhece o companheiro como agressor, sente que tem um problema e buscam ajuda. Até este momento pode haver transcorrido muitos anos
isto porque a maioria das mulheres que vivem em situação de violência sentem medo, acreditam que os maridos vão mudar mesmo sem ter recebido qualquer tipo de ajuda; sentem pena e culpa de abandonar o companheiro; dependem financeiramente do marido e acham que sua identidade está ligada ao casamento.
Apesar destas justificativas serem válidas e reais para grande parte das mulheres, a baixa estima, a falta de segurança em si mesma e a necessidade de afeto e valorização é o que prevalece levando-as a suportarem este ciclo por vários anos sem procurarem ajuda. As mulheres que sobrevivem à violência no dia a dia e permanecem na relação de maltratos não são covardes, como pensam muitas pessoas, são sim muito valentes e fortes a ponto de resistirem a tudo.
Estas mulheres necessitam de ajuda para recuperar a autoestima perdida, ou que nunca teve, já que é a melhor arma para proteger-se e adquirir autoconfiança. Elas necessitam de pessoas que entendam sua problemática sem questionamento e prejuízos, sendo este o primeiro passo para a recuperação e a cura.
A Igreja tem vivido esta realidade de ver mulheres queixando-se de viver em situação de violência por anos seguidos, filhos desajustados por terem vindo de lares violentos, maridos violentos que não sabem como sair da situação e prossegue com atos agressivos. Cabe à Igreja uma ação urgente de desenvolver trabalhos com famílias ensinando a visão correta dos princípios de Deus sobre a família, sobre as leis e direitos humanos, desenvolver Ministérios de ajuda a cônjuges e filhos vítimas de violência, como também ajuda aos agressores.
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Vera Lúcia Costa Souza é professora de Enfermagem na UEFS; e enfermeira do Ministério da Saúde.