Casamento: uma esperança envergonhada

Publicado por Sérgio Leitão em Casamento

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por Nilza Valéria

 

Outro dia fui a uma festa de casamento, da filha de uma amiga da família. Gente da mesma igreja, do mesmo bairro, da mesma escola. Roupa nova, tarde no salão de beleza que a festa será badalada, com direito a notinha em coluna social.

O salão de festas fica em local de difícil acesso. No caminho vou pensando no processo do casamento, que começa no singular — uma pessoa, que gosta da outra — e termina no plural. Não por serem dois, mas por serem muito mais que isso: se bem-sucedido, filhos, sogros e cunhados. Se não, a lista inclui advogados, juiz, novos cônjuges e novos filhos.

Gente elegante no salão de festas. A mãe da noiva (figura de destaque em qualquer cerimônia de casamento), nervosa, recebia os convidados enquanto administra os casais de padrinhos. Haja padrinhos! O pai da noiva, cabisbaixo, parece contabilizar o investimento feito na festa. O pai paga e um sujeito leva a filha embora. Todos riem e tiram fotos.

Ouve-se a marcha nupcial; a descontração cede espaço e o ambiente se torna solene. É a hora da bênção. Entra a noiva, triunfante em seu vestido branco. O noivo é figura quase dispensável enquanto ela atravessa o salão. No altar, eles se encontram, e o pastor, com todos os paramentos da tradição protestante — terno, Bíblia em punho e alguma piada — inicia o ofício. Discurso rápido. Exalta a beleza da noiva e diz ao noivo que essa será a única vez em que verá a moça tão graciosa, e que deve amá-la mesmo quando ela estiver feia. “A mãe da noiva segura as lágrimas.”

Vem o segundo pastor. Conta que conhece o noivo desde criança (que bom que alguém conhece esse cara e fala dele) e joga um copo no chão. A platéia fica surpresa. Ele diz que, assim que os cacos tornarem a ser copo, o casamento pode ser dissolvido. “A mãe e a tia da noiva seguram as lágrimas.”

Chega o terceiro pastor. Terno bem cortado, Bíblia em punho e um saco de sal. Recomenda que os noivos comam sal, provavelmente para ilustrar que quando acabar o sal os noivos se conhecerão profundamente. “A mãe, a tia e a avó da noiva choram.”

O quarto pastor começa a perguntar se serão fiéis na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, com amor e respeito, até que a morte os separe. A pergunta é repetida pelo quinto, pelo sexto e pelo sétimo pastor. O oitavo pastor, que também é cantor, canta a promessa de fidelidade. O nono pastor aparece de um lado enquanto uma criança surge do outro trazendo as alianças. Com tanto pastor e muita recomendação, é de se supor que o problema mais grave que o casal terá é hipertensão, por conta do saco de sal. A menos que seja sal ungido, sem efeito colateral.

É o décimo pastor quem manda os noivos se beijarem. Por fim, aparecem mais dois pastores para dar a bênção final, aquela em que os noivos saem, os pastores gritam seus nomes, eles voltam às cabeças e ganham a certeza de que Deus os abençoará e os guardará. “A esta altura a mãe do noivo também chora.” Mas quem se importa com a mãe do noivo em festa de casamento?

Pergunto-me, intimamente, se vai aparecer mais pastor, ou cantor. Será que acabou a cerimônia? Não pode ser! Depois do ritual, da aliança, do copo quebrado, do sal, da explicação simplista da submissão e do amor, das fotos expostas no telão, da recomendação de que namorem mesmo quando os filhos vierem, da importância do culto doméstico, da comida fresca no fogão, de que o sexo seja no Senhor — fiquei esperando que alguém os fizesse prometer que o casamento não os faria pessoas possuidoras uma da outra, e sim respeitadoras da individualidade da outra, lembrando sempre que casamento é estar ao lado do outro por livre e espontânea vontade.

Que tal um décimo terceiro pastor para fazê-los prometer serem amigos e amantes? Que tal a promessa de fazer da passagem dos anos uma via de cumplicidade e não de cobranças por sonhos idealizados e não concretizados? Não me importaria se um décimo quarto pastor os fizesse prometer sentirem prazer de estarem juntos e serem felizes ao lado um do outro pelo simples fato de serem os que melhor conhecem um ao outro e, portanto, os mais preparados para se ajudarem. Que tal um pastor perguntar se eles se deixarão conhecer? Que tal alguém ensinar que rotina não pode ser desculpa para mau humor, que sexo é bom sem pudores, que terão filhos por amor e por vontade, e não porque todos esperam que tenham filhos, e que deverão educá-los para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?

Poderiam vir mais pastores mostrando, na Bíblia, que não devem falar mal um do outro, fazendo-os prometer também que a palavra liberdade terá a mesma importância que sempre teve em suas vidas e que saberão lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina. Pena que ninguém tenha dito aos noivos que, além de declará-los marido e mulher, os declarava maduros para a nova vida.

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Nilza Valéria é jornalista, mãe e esposa, por acaso, de pastor. Artigo publicado na Revista Ultimato, edição 315.  

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